quinta-feira, 6 de abril de 2017

Lesões em academias, uma frequência

Foto: Divulgação

Por Luana Tachiki       

É cada vez mais comum pessoas lesionadas em academias. Não basta se matricular, passar por uma avaliação física, ter os cuidados iniciais de um personal trainer e depois seguir em frente modificando tudo, aumentando sua própria carga, sem reavaliação ou supervisão adequada.
Jonas Rabelo dos Santos, 30 anos, Personal Trainer das academias Bodytech e RunWay, diz que as lesões tem sido bem frequentes devido a vários fatores: um deles é a falta de condicionamento físico. Segundo ele, o aluno não tem o básico que é um padrão de movimento e quer efeito rápido, sem preparar o corpo para receber treinos mais intensos, de níveis mais avançados, no qual o resultado só se adquire com meses e até anos. Uma soma de fatores contribui para que exista um perfil de aluno mais propenso às lesões na academia, mas no geral, nasce da ansiedade; do desejo por um corpo bem definido, uma hipertrofia de glúteos, peito e coxas, imediatamente.
Para Jonas, primeiramente, é necessário se conscientizar do real: - Quem você é hoje? A partir daí, montar uma carga de exercícios a curto, médio e longo prazo. Mudar os hábitos, treinar de forma correta, até chegar ao ponto de evoluir para um treino mais pesado.  “É difícil eu sei, até eu gostaria de obter esses resultados rápidos”, diz.
Montar um treino de acordo com a vontade do principiante é outro fator que o deixa vulnerável às lesões. “Nós profissionais, somos pressionados, nos tornamos refém da ansiedade de quem frequenta academia. Se você não prepara o treino do jeito que o aluno quer, ele procura outro personal”, desabafa. “Em função disso os profissionais acabam se digladiando para adaptar um treino diferente, deixando o básico pra trás, porque não se vê o resultado imediato”, completa Jonas.
Ser um profissional mais preocupado com a saúde do aluno e confrontá-lo com sua realidade antes de montar um treino, tem os riscos de perdê-lo, mas Jonas prefere conscientizar o aluno de suas condições físicas e possíveis lesões, caso queiram intensificar o treinamento sem estar preparado.  "Os alunos gostam muito dos treinos mais puxados, que geram dor muscular, estilo: "NO PAIN, NO GAIN". Por defender a linha de ser mais cauteloso, não evidenciar carga e sim uma postura melhor, acabo taxado no mercado - a aula dele é mais fraca...”, aponta. 
         A competitividade entre profissionais, para garantir o contrato, é outro fator que determina a possibilidade de gerar mais lesões nas academias. Mais alunos, menos cuidado individual, que leva a auto avaliação.
Jonas ressalta que é fundamental conhecer o próprio corpo, os limites, e dá dicas: “Eu como profissional indico a alguns alunos RPG, PILATES e FUNCIONAL, quando percebo a necessidade de trabalhar o básico para avançar posteriormente. Ter uma boa conduta de escápula; observar como a força está sendo aplicada; contrair o abdómen durante a execução da atividade para ter proteção maior na coluna, dando atenção para o core  (que é o centro do nosso corpo. Conjunto de músculos responsáveis pelo equilíbrio e adequação postural do tronco); dar ênfase na fase excêntrica; respirar; concentrar; observar se não está fechando o joelho; isso vai dar resultado, mas a maioria prefere fazer de qualquer jeito e aumentar a carga, porque é mais fácil que executar corretamente o exercício”, finaliza.
Rogério Soares Barros, 33 anos, outro profissional da área, formado em Educação Física e Nutrição pela Universidade Católica de Brasília - UCB e Especializado em Treinamento de Força e Fisiologia do Exercício. Proprietário do Instituto Perface/Lago Sul, pontua outros tipos de lesões - “Existem as microlesões musculares: são lesões normais e naturais para quem está começando - saindo do sedentarismo e iniciando uma nova etapa na vida com atividade física. Elas trazem um pouco de desconforto no dia posterior à atividade". Segundo ele, uma circunstância que desencadeia lesão são as prescrições erradas em certas patologias: “Alguns exercícios não são compatíveis com sua forma anatômica. Isso não permite que você execute um exercício que poderia dar certo para mim. Nem é tanto pela carga pesada”, afirma.
Para Rogério não existe receita de bolo pra prescrever um treino "Ninguém melhor do que o aluno pra conhecer o corpo dele, então deve ser sincero e não esconder nada. Constantemente nas academias, o aluno tem medo de relatar a verdade, porque acredita que o professor pode priva-lo de alguns exercícios, que ele não está disposto a ceder, em função de querer resultado a curto prazo, porém, quando há interação entre as duas partes (aluno e professor) o risco à lesão cai muito”, completa.
Segundo Rogério, nas academias a relação entre aluno e professor deveria ser menos capitalista, fator essencial para evitar lesões na sala de musculação. “O professor tem obrigação de dar toda assistência ao aluno e ter um feedback constante de como ele se sente durante o treinamento, porque o exercício que é bom pra você pode não ser pra mim”, conclui.

O que provoca as lesões na maioria dos casos?
Rogério - Execução errada de movimento. O músculo que era para ser exigido não está sendo trabalhado. O exercício é pra sentir o músculo. Sentiu ombro, sentiu cotovelo, PARA! Está errado! Se não parar, vai nascer uma lesão.

Quais os sintomas?
Rogério - Primeiro sintoma é dor na articulação. O aluno pode sentir durante o exercício, com uma ruptura de ligação, ou pode sentir posteriormente, por causa da endorfina e da serotonina, que são neurotransmissores e liberam uma sensação de bem estar,  inibindo a dor no momento da lesão.

O que fazer?
Rogério - Sentiu que lesionou, procure um profissional (ortopedista). Ele poderá passar um medicamento para dor ou encaminhar à cirurgia, se for o caso. Após os primeiros procedimentos, geralmente prossegue com exercícios de fisioterapia, no processo de reabilitação. Em alguns casos, o repouso, e em seguida o fortalecimento da musculatura com  supervisão de um Educador Físico.

Quais as doenças crônicas causadas por lesões?
Rogério  - Várias, dentre elas: Bursite e Epicondilite que é mais difícil de tratar, por resultar em complicada reabilitação.

De acordo com a Dra. Aline Gomes Farias, 41, Fisioterapeuta, Especialista em RPG e técnica francesa de Felipe Souchard também Proprietária da Inovare Fisio, na Asa Sul - Os pacientes que mais chegam aos consultórios, reclamando de lesões, são aqueles que querem ser atletas em curto prazo, tornear os músculos e mudar seu perfil imediatamente.  Ela diz que “O ideal seria obter um espelho para cada aparelho de musculação, que infelizmente não existe. O aluno precisa ver a simetria de ombro e angulação de joelho. Vejo pelo lado da postura na hora do exercício, seria o ideal”.
Para a Dra. tudo fica mais claro quando você reconhece o seu modo de vida. Qual  a sua postura no dia a dia? Como você abaixa para amarrar um cadarço? Como agacha para pegar uma caneta? Isso  importa na hora de analisar um indivíduo propenso à lesão. “Verificar o histórico é primordial, o que dificilmente acontece. Ninguém faz um apanhado histórico do indivíduo para saber se praticava exercícios e em que nível parou antes de montar um treino, por exemplo, mas se fizessem, seria perfeito”, declara.
Para evitar definitivamente futuras lesões com meses de fisioterapia, reabilitação e demais atividades para se tratar, outra dica da Dra, é: “Dê um de doido: levante-se e alongue-se onde você estiver, no trabalho, na academia... Incomodou? Levante-se, e alongue-se, tenha flexibilidade”, concluiu.
Rodrigo Silva de Moraes, 18, estudante, foi lesionado em academia. ''Percebi que havia algo errado com meu ombro, quando em atividades domésticas senti desconforto, ouvindo estalos constantemente. Decidi apelar pela automedicação, e como os remédios tinham um resultado imediato, continuei, mas sabia que não tratavam o problema, então, procurei um fisioterapeuta e já vou começar as sessões de RPG''.
Na busca para obter uma vida repleta de saúde, sem desencadear doença alguma, ou pelo menos, evitar ao máximo o surgimento, existe uma linha tênue entre o real e o ideal. Muitas vezes o ideal está longe do alcançável, mas prevenir e saber as melhores medidas a serem tomadas  é um caminho para uma vida melhor e com mais qualidade. 

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